aproveitando a segunda chance

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Sexta-feira, Julho 17, 2009


um tombo,dois desequllibrios e muita descoberta


Já que ontem não tive nem tempo de andar com a prótese, devido à tanta correria aqui pra resolver pendências que estavam há meses na p fila de espera, resolvi hoje fazr uma jornada dupla, e assim então dei três passeios pela casa, agora um pouquinho mais habituado a essa rotina q eu tenho que adotar na minha vida.

Quando saí do banheiro, onde escovei os deintes mais uma vez sem nem segurar na muleta, passei pelo corredor e quase chegando na sala....CATAPUM!

Perco o equilíbrio e caio todo sem jeito pra frente. Não me feri não,mas o susto foi grande (ainda maior o da minha mãe) e pra me levantar, tive q me escorar na estante da TV. É um tanto duro pensar que, uma coisa assim tão desgradável como tomar tombos eu precisarei me acostumar porque, mesmo quando já estiver bem craque com a prótese, essas coisas acontecem quando menos se espera...

Continuei minha jornada e então entrei na cozinha. Foi pra lá de especial esse momento porque, assim como quando entrei no banheiro, este pareceu também a primeira vez que entrava lá. Consegui enxergar o microondas que eu tinha comprado há muito tempo mesmo, e há pelo menos 4 anos não o via na mesma altura, já que ele fica em cima da geladeira, e o coitadinho parou até de funcionar , já que minha mãe não curte e nem sabe operar o pobre...
Observei com detalhe as estantes onde minha mãe guarda os objetos de vidro, que eu enxergava tal qual uma criança, inclinando o mais pra trás possível a cabeça pr apoder enxergar o que tinha lá... foi como conhecer algo que sempr e esteve na minha frente, mas que via de um só ângulo, assim como um dia a Lua resolvesse girar 180 graus e mostrar o lado que ela sempre esconde da gente...

Uma vez na cozinha, porque não ir na pia? Chão de cozinha bate uma certa aflçição quando entro, porque já não bastasse a probabilidade de respingos no chão ao redor da pia, ainda inventaram de revesti-lo de azulejo,pqp... Algo me diz que ainda vou tomar muito estabaco nesse setor da casa... Salvo essa premoniçao, arriquei ficar em frente a pia é "brincar " que estava lavando a louça. Para desempenhar tal função eu tinha q me livrar da muleta, e até que me virei legal, apesar de alguma insegurança. Ruim foi na hora de sair, onde tive que pedir pr aminha mãe vir da sala pr ame pegar a muleta que, caída no chão, eu sabia que se eu pegasse eu não conseguiria subir de volta...

De volta à sala, ecidi fazer algo que nunca tinha feito nessa casa: "brincar " de olhar pelo "olho mágico" e abrir a porta. Estranho, eu nunca fiz isso na miniha propria casa! Tive que antes abrir a porta e balançar a muleta lá fora pro detector de presença ligar a luz e então eu poder enxergar alguma coisa pelo furo na porta. Com as luzes acesas, corri pra dentro de casa, fechei a porta, e olhei, até com certa ansiedade, por aquele "olho mágico", que me mostrou o que eu smepre via, só que de um modo e um ângulo inédito. Nossa, o corredor visto desse buraquinho com lente convexa é difereeeente... Tá, pareceu idiota,mas fiquei olhando o corredor por aquele buraquinho por mais de um minuto, observando todos detalhes que, se eu quisesse , era só pegar a cadeira, me aproxima e mesmo tocar... mas não seria a mesma coisa.

Por fim paguei pra ver como que eu me viraria pra me sentar na cadeira que fica na sala. Até que pra sentar-me não foi assim tão complicado, mas prame levantar de novo... Na primeira tentativa, com a mesma força que eu tinha subido eu desci de medo por cuasa do desequilíbri que senti. Tive que parar pra estudar uma forma mais segura de me levantar sem perder o equilibrio, e assim então, deixei minha perna e muletas levemente inclinadas pra fora (meio que formando um "A"), e então me levantei com mais segurança.

Cruzei a sala de novo e ao chegar no meu quarto, tentei me sentar de novo,mas dessa vez na minha cadeira de rodas mesmo, o que tem um agravante bem grande que são as quadro rodas: se ao me sentar num banco éo atrito deste com o chão que me dá apoio, numa cadeira de rodas é justamente a existência deste que faz sentir aqueles rapazes de Santa Tereza que pegam o bonde já andando (coisa que até eu mesmo fazia quando mais novo...). A primeira tentativa e... OPS! Lá foi eu me desmontar todo, caindo pra frente e me agarrando à cadeira pra ir dierto ao chão. Depois dessa jornada, mesmo sendo uma noite fresca, acabei suado e bufante. Dar os primeiros passos com a prótese não é facil não.

Já que a perseverança é uma qualidade que eu tenho que preservar hoje em dia, tentei pô-la em prática nesse momento, pois enquanto escrevo esse post, a prótese continua acoplada aqui na minha perna, justamente pra eu, apesar dos eventuais incômodos, me acostumar com a presença dela, enxergando assim que esse "remédio amargo" é, pricipalmente, a chave pr a minha liberdade.

 

Postado por Antonio Bordallo às 8:01 PM

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Quarta-feira, Julho 15, 2009


+ tempo, + objetivos, + realizações



Depois da entrega do meu trabalho final da conclusão de curso, apresentei na 3a feira agora, dia 14, o mesmo trabalho, só que juntamente com a peça-conceito confeccionada e para a banca avaliadora, os alunos e convidados. O resultado não podia ser melhor, já que foi super elogiado e na sexta-feira agora vou ver as notas que recebi... A apresentação dos slides, vocês que não foram, podem conferir abaixo:

Antonio Bordallo's Fashion Design Graduation Men's Collection

Uma vez que a grande missão de concluir uma graduação antes dos 30 já foi cumprida, vieram à tona outras duas , igualmente redentoras para minha vida:

1) Ser economicamente produtivo (isto é, trabalhar e fazer meu pé-de-meia) e

2) VOLTAR A ANDAR

Já que a primera missão ainda não depende tanto de mim, já tô me mobilizando para cuidar da segunda.

Hoje, após um dia de tantas tarefas pendentes ao longo de vários meses por ter priorizado a faculdade ( psicólogo, dentista, etc...), estava eu naturalmente cansado e prostrado na minha cama pra recuperar as energias, quando uma amiga próxima me manda um torpedo pra saber se eu já tinha visto a "nossa amiga" hoje. Ela mesmo tinha convencionado de chamar minha prótese de "nossa amiga", já que se eu não vê-la como tal, nunca vou ter intimidade para tornar seu uso uma rotina (esperto isso, não?). Pois bem, apesar de cansado, lembrei que hoje mais cedo ja tinha pedido pra minha mãe reconstruir um saco de nylon que proporciona o encaixe da prótese e portanto precisava fazer por onde e testar a perna ainda hoje. Crei coragem e vesti.


O resultado não poderia ter sido mais interessante. Meu conforto e confiança com aquele corpo estranho foi tamanho que lancei mão de apenas uma muleta, que me ajudaria a ter apoio pra dar os passos, e fui seguindo...

Passei pela porta do meu quarto, ainda com passos incertos, tímidos, mas cheios de vontade. Apesar da insegurança, fui me aproximando silenciosamente da minha mãe, que estava na sala costurando, e só quando eu estava de frente pra ela, a menos de 1,5m que ela percebeu minha presença e se emocionou com a minha "audácia"...
=)
Pra mim foi um momento um tanto único: eu estava conhecendo a minha casa, depois de quase 3 anos morando nela...

A primeira coisa que conheci de fato foi o espelho da sala. Eu sempre fui uma pessoa muito narcisa, mas o costume remanescente de me olhar no espelho não me trouxe assim boas referências, já que somente agora, de pé, constatei que não tô assim tão em forma. Me senti um gordinho parrudo, quase um bujãozinho, se comparado com meus dias passados... Constatei que o tempo, a gravidade e gordura são implacáveis, e por isso, mais uma missãozinha apareceu na minha lista:

3)FICAR MAGRO!

Apesar de cruel, adorei a franqueza do espelho...

Já que estamos falando de medidas, lembrei-me dos belos dias que eu media 1,83m de altura. Eu já tinha consciência que esses dias já são passados, não só por eu estar levemente curvadinho por cuasa dos ajustes da prótese, mas também porque, pra própria tíbia ter consolidado as duas partes, foi preciso cortar alguns centimetros de cada ponta. E a consequencia de tudo isso foram sinceros 1,74m de altura.... 9 CMS DE PERDA!
Me senti diminuído, literalmente...

Apesar de esdrúxulo e doloroso, eu sei que eu posso recuperar esses gigantes 9cms de perna, por conta de meros 3 meses de parafusos laminados rasgando minha pele de novo... vale a pena?

Depois dessa sessão de choque de realidade, resolvi passear pela casa pra ver se tinha coisa mais otimista a me esperar. Chegar no banheiro não foi assim tão complicado, e olhar para o espelho e ver meu rosto pelo primeira vez chegou a causar estranhamento, a quem costuma só enxergar o reflexo de parte da testa pra cima... minha estabilidade foi tamanha que arrisquei escovar os dentes observando meus movimentos no espelho. Obtive muito sucesso,mas a sensação me pareceu tão estranha, que pareceu q eu estava escovando meus dentes em outro banheiro, desconhecido por mim até então...

Esses 20 e poucos minutinhos usando a minha amiga prótese rendeu algumas dores na lombar, por causa da posição, mas ao mesmo tempo pude sentir que o encaixe não está assim tão incômodo, tanto que até o presente momento, apesar de já sentado e em frente ao computador, escrevendo essas mal digitadas linhas, continuo usando a prótese e sem sentir nenhum incômodo grande, caraterístico do encaixe antigo.


Pra "ilustrar", um fotinho da visão que tenho quando olho pra baixo agora... meus três diferentes apoios:




 

Postado por Antonio Bordallo às 6:44 PM

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Terça-feira, Julho 07, 2009


Depois de um 4/5, nada melhor que um 6/7 ...


Como alguns devem saber, o dia quatro de maio ( o popular 4/5) foi marcado na minha vida por ser o dia do meu acidente, onde tudo mudou pra pior e até hoje ainda ando catando os cacos do que restou de mim e da minha vida por aí. Porém, mais de 4 anos depois, foi um seis de julho ( ou 6/7) que se tornou outro marco, só que dessa vez positivo, nessa minha luta pra me reerguer em todos os aspectos.

A primeira coisa marcante que destaco nesse dia foi a conclusão simbólica de um esforço que eu queria realizar desde antes mesmo do meu acidente: concluir uma Graduação. Finalmente nesse dia entreguei a monografia e o book do trabalho final proposto pela Universidade Candido Mendes pra eles me liberarem o diploma e eu me considerar formado em Design de Moda. Isso pra mim é de uma significância ímpar, pois sempre quis que esse dia chegasse, e mesmo me lembro que simplesmente estudar Moda pra mim, muitos anos antes, parecia um certo sonho impossível. Pois bem, ontem me provei o improvável, mais uma vez. Abaixo o único registro disso,acompanhado da com minha grande amiga e compartilhadora de estresses de último período de faculdade, Lisiane Arize, momentos após entregarmos o fruto de nosso trabalho, já pela noite:
























[notaram que eu tô em pé? Apoiado e gordo, mas em pé!]


Outra coisa tão importante quanto o episódio descrito acima, e que aconteceu entre essa finalização e a entrega propriamente dita do trabalho, foi algo que, de tão corrida que minha vida tava, eu nem criei tanta expectativa, mas que contribuiu pra esse dia ser o mais marcante em anos. Lá pra umas 3 horas da tarde, lá estava eu no HTO (hospital que me trato) pela enésima vez e, finalmente, depois de quase 4 anos de trat
amento por lá, consegui utilizar minha “perna substituta” sem incômodo. O resultado disso foi que não só consegui ficar em pé, como também até arrisquei das alguns passinhos , curtos, cheios de incertezas ainda, mas SEM SEGURAR EM NADA!=D

Claro, eu parecia um patinho recém-nascido dando os primeiros passos,mas “pqp”, como é gostoso voltar a se mover “sozinho” depois de
tanto tempo! Claro, havia uma dorzinha aqui ou acolá, mas insignificantes perto do que já passei, e isto me proveu até a liberdade de arriscar tirar al
gumas fotinhos sozinho, já que me deixaram por uns 10 minutos na sala de fisioterapia sozinho, caminhando pela barra paralela. O resultado vocês podem ver nessas fotos abaixo:



















[eu tentando tirar um foto sozinho de pé e mostrando a perninha nova...]

























[dessa vez eu consegui, mas me cortei da foto, hehehe ]

























[e agora manobrando pra tirar foto pelo espelho...]


O engraçado de isso tudo é que, apesar de na foto eu não estar parecendo assim tão bonito, não sei o que tem naquele espelho da sala de fisioterapia, que eu naquele momento me sentia muito mais bonito do que vocês estão vendo aí nas fotos. Uma beleza que me remeteu meus tempos áureos de malhador e freqüentador do Posto 9, na praia de Ipanema... sei lá, me bateu saudade.

Bem, a médica então me liberou pra levar a prótese pra casa e então voltar a ser tratado pela ABBR, como eu estava fazendo há alguns meses. Depois da correria da graduação e apresentação à banda de formatura, volto pra lá e o objetivo vai ser ter segurança ao andar com a prótese, independentemente. Vamos ver quanto tempo que vai levar isso... o que importa agora é que outro grande passo foi dado. O primeiro de muitos!
=)

A foto abaixo foi tirada pela fisiatra, aí ficou um pouquinhozinho só melhor,hehehe...

PS:agora eu fico é com curiosidade do que pode acontecer comigo em algum futuro dia 8/9...
 

Postado por Antonio Bordallo às 3:50 PM

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Domingo, Junho 17, 2007


RRRC: Reavivar, Realinhar, Refixar e Comprimir


Já fazia um tempo que não postava novidades sobre minha evolução clínica, principalmente porque posso dizer que desde novembro não tive nenhuma. Agora eu já posso dizer que em breve haverá alguma sim, só não dá pra especificar quando.

Sexta feira agora eu fui no ortopedista e então tirei um raio-x depois de muito tempo. O que se viu foi realmente um “samba-do-crioulo-doido”, como podem ver abaixo:

 

 

 


Pra quem não entendeu chongas, o maior é a minha tíbia e o fininho, a fíbrula (novo apelido do perônio). Segundo interpretação médica, a tíbia não se consolidou (pra saber isso nem precisava raio-x...) e no local ocorreu um pseudo-artrose. Pra quem não sabe, pseudo-artrose é uma “falsa articulação” que se formou naquele local. Já sobre o perônio, nem se fala...bagunça total.

Pra solucionar pelo menos a nossa amiga tíbia, será necessário o procedimento de 4 passos, já apelidados com a alcunha de RRRC, ou seja, os médicos vão REAVIVAR o osso ( como que fazem isso eu não faço idéia), REALINHÁ-LOS (porque vocês já viram em uma das imagens que isso ta uma tristeza, e já nem sei como eu ainda ouso me apoiar um pouco nessa perna), RECOLOCAR O FIXADOR (é, gente, lá vem os parafusos furando minha carne outra vez, pqp...) e COMPRIMIR as extremidades (porque só comprimindo um pedaço contra o outro, normalmente jogando peso em cima, é que o ossos se estimulam a recalcificar)...

A data pra isso tudo acontecer ainda é incerta. Digo isso porque o doutor tinha programado pra julho, porém (ah, porém...) o anestesista só vai ter tempo pra me atender a partir de agosto... pqp de novo! Depender de serviço público é f... né?

Essas decisões tomadas na última sexta-feira trouxeram a tona tanto coisas boas quanto ruins, achei melhor enumerá-las:

-antes da consulta sentia uma enganação recíproca entre eu e a fisioterapeuta. Sabia que tudo que estava fazendo não ia resolver nada, mas agora pelo menos vejo que estamos caminhando pra algo.

-renovou-se minha esperança para voltar a andar em breve. Pode ser muita especulação minha, mas acredito que me operando em agosto ainda, lá pra novembro esse osso já deve ter se consolidado... se eu estiver “malhando direitinho” os músculos da perna, já devo poder me apoiar no meu pezinho... estimulante, não?
=D

-já fico mais tranqüilo ao saber que meu osso não vai consolidar torto na perna. Eu tinha certeza de que se meu osso se consolidasse da forma que estava, eu ficaria de perna torta que nem o Garrincha, mas sem a outra perna não ia dar muito pra ser jogador de futebol, né?

-Com esse papo de reavivar, rejuntar osso e tal, me bateu uma certa angústia. Não pela dor, já acho isso até uma besteira, sabe? O que me preocupa mesmo é que há muita chance deles terem que aparar um pouquinho as extremidades dos ossos a serem colados, e com isso EU VOU PERDER ALGUNS CENTIMETROS EM ALTURAAAA!!! Pô, posso ser feinho, barrigudo e amputado, mas faço questão de, quando voltar a ficar de pé, voltar a ver o mundo dos 1,83m de altura que sempre tive! O três centímetros alem do 1,80m fazem muita falta pra minha auto-estima sim, ta?

Bom, é isso, vamos ver se pelo menos nos últimos meses do ano eu já dou algum passeio com muletinhas por aí, né? Pelo menos vai dar pra fazer alguma brincadeirinha com o carinha do vídeo abaixo...

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Postado por Antonio Bordallo às 4:39 PM

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Domingo, Maio 27, 2007


Realizando sonhos em sonho


Acabei de acordar nessa manhã de domingo e tive que relatar aqui o meu sonho.

Sonhei que estava passeando numa motocicleta que, dependendo da situação, virava automaticamente uma bicicleta: em alguns trechos pedalava, noutros acelerava com o guidão... tudo à minha bel vontade, e onde era conveniente. Era estranho que mesmo no sonho eu me via amputado, mas na hora de pedalar eu sentia fazer força igualmente com as duas pernas...

Os lugares que eu passava pareciam um patchwork de épocas e hora do dia: desci por um trecho no Humaitá, onde no sinal fechado à noite trocava uma idéia sobre moda com uma mulher que parecia que conhecia já faz um tempo, mas na vida real não faço a mínima idéia. Seguia adiante e passava por ruas calmas no Jardim Botânico no que parecia ser uma tarde... cheguei no Baixo Gávea bem de manhãzinha, só que não aparentava ser o que hoje é: lá eu via só mato, campos de mato irregular à beira da lagoa, com senhores bigodudos indo jogar futebol com roupas brancas compridas,quase sociais,e uma bola de couro marrom, isso sem falar no bigodão deles... via também algum animalzinho com um cervo,um bezerro, não lembro bem. Olhava para as montanhas ao fundo e não lembro de ter visto a estátua do Cristo... Ao mesmo tempo, mais a frente, via também um movimento de pessoas como se estivesse numa pequena cidade de veraneio, um movimento pequeno, mas aprazível...

Fiquei me questionando sobre o porquê de eu ter tido esse sonho... não demorei muito pra associar que ESSE TRECHO DO HUMAITÁ EM SENTIDO À LAGOA ERA JUSTO O QUE EU IA FAZER DE BICICLETA LOGO APÓS CRUZAR O TÚNEL ONDE SOFRI O ACIDENTE. Essa ordem estranha de Noite-Tarde-Manhã, logo após interpretei que é um sinal do tempo indo pra trás... não preciso dizer mais nada, né?
 

Postado por Antonio Bordallo às 8:35 AM

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Quinta-feira, Maio 17, 2007


Acho que estou perdendo essa guerra


“Acabei de acordar de um sonho. Meio que sem querer, ele me mostrou algumas coisas na dimensão que elas realmente são, o que me deixou alarmado.
Sonhei que estava no metrô, e tinha uma garota que me pareceu interessante, só que ela nem me dava bola. Minutos depois chega um cara e começa a dar um papo em outra garota que está a minha frente... e conquista. Tempos depois chega mais gente ao metrô e nisso aparecia uma amiga minha da época de colégio, que eu supunha que estivesse nos Estados Unidos. Ela se surpreende mais comigo do que eu com a presença dela: “Nossa, como você ta gordo, Antonio...” ela disse. Como resposta, declarei: “ É, acho que estou perdendo essa guerra...”.
Essa declaração, na verdade, condensou tudo que está realmente acontecendo. Não com a lente otimista do Antônio, mas visto do jeito que elas realmente são, em 3ª pessoa.
Isso tudo começa no despertar do dia. Acordar e constatar de primeira que não tenho uma perna é uma dificuldade que, apesar de acostumado depois desses 2 anos, soa como uma má noticia já pela manhã. Depois disso, abrir o olho e a primeira coisa que vejo é a cadeira de rodas encostada na minha cama é outra coisa bastante desestimulante, feia.
Monto então nesta que eu acabo de maldizer, me encaro no espelho que tem em meu quarto e vejo que não sou mais como era: mesmo tendo a certeza de que meu interior foi a parte que mais mudou, o meu exterior mudou e muito...pra pior. Normalmente as pessoas tem saudade de suas formas físicas da juventude quando chegam na meia-idade, na velhice. Já eu tenho o dissabor de sentir saudade da forma que tinha há dois anos somente... sempre tento quebrar esse ciclo vicioso de “ não me cuido porque ninguém repara em mim e ninguém me repara porque não me cuido”, mas mesmo me cuidando, as mulheres não reparam mesmo: vocês não sabem o quanto uma cadeira de rodas tira de atração de uma pessoa... parado, andando, correndo, em nenhuma posição você parece uma pessoa atraente. Parece um grande preconceito meu, mas é o que andei reparando, nesse tempo todo andando com ela e ainda mantendo o costume narciso de outrora de olhar minha figura num mínimo reflexo de vidro, e o que vejo não é tão legal quanto antes. Bem, eu conheço algumas cadeirantes que são mesmo muito bonitas e elegantes, mas tenho certeza de que elas sem a cadeira, andado, seriam ainda melhores... entendem o que eu digo? (é bom eu me explicar direito antes que me acusem de preconceito e etc...).
Continuo meio vaidoso, mas essa vaidade não é tão suficiente pra eu ser um cara que as pessoas olham com homem. Podem até olhar e pensar: ‘Nossa um homem tão bonito e forte... numa cadeira de rodas...” . Broxante isso,né? Pois é assim que eu sinto alguma mulheres olhando pra mim... me sinto um “zero-à-esquerda-sexual”. Posso meio que estar reclamado de atenção, mas tem sim pessoas que em tese se fazem interessadas sim, mas sei q fazem isso porque estão distantes, agüentar a situação de perto não é coisa que qualquer uma tá preparada, e nisso, é muito mais fácil optar por um um cara menos interessante que ande do que um Antônio que desfila em cadeira de rodas... O stress por estar do lado de um cara chato, nesse caso, é bem menor... por isso então eu criei uma metáfora pra essa situação que eu já estou cansado de passar. Me sinto como se estivesse numa corrida de carros e, mesmo sendo o piloto mais competente, mais apto a vencer, eu sempre sou passado pra trás por outros menos preparados pelo simples fatos deles conduzirem carros normais e eu pilotar um fusca... Não importa o quanto competente eu seja, já vi pelos resultados que sempre saio em desvantagem e fatalmente perco.
Voltando a “um dia na vida de Antônio”, depois de passar por tudo o que passo, eu ainda tenho a pachorra de ir à rua. Vocês todos lêem aqui que estou saindo na rua, indo a vários lugares, mas faço isso de abusado que sou. Vejo claramente que esses não são preparados pra mim, assim como nem as pessoas estão preparadas. Me sinto inconveniente, um ponto destoante que ninguém esperava que estivesse lá. Bonito isso pode parecer de primeira, mas passando por isso em primeira pessoa, soa meio como se eu fosse ridicularizado. Um estabelecimento não coloca rampas ou escadarias não é porque é “distraído”... na real ele faz isso porque ele não quer alguém com cadeira de rodas entrando lá e pronto. Não existe medida discriminatória mais discreta do que colocar degraus. Dessa forma, elegantemente, você está ponto um cartaz bem grande que diz “nesse estabelecimento (principalmente bares e boites) só são bem-vindas pessoas (supostamente) bonitas”. Em lugares normalmente destinados a idosos ou cadeirantes, esse vai sim ter uma rampa. Um estabelecimento ou outro pode se tocar e então fazer, mas nesses dois anos eu v lugar que prometeu colocar rampa e até hoje to esperando... não tenho mais nada mais a declarar sobre isso. Só me resta esperar que na entrada do Céu, São Pedro também barre esses caras pra antes terem um papo com a “Chefia”...
Sobre amigos, eu nem queria comentar, mas acho digno deixar algo registrado. É fato que muitos amigos, nem na época que estava andando, eu os via freqüentemente, e desses eu eximo toda a culpa, mas aqueles que, se não todo fim de semana a gente combinava de sair, pelo menos uma vez por mês nos víamos, posso dizer que fui abandonado mesmo. Dizer que não tem tempo e tal... beleza... nem eu tinha tempo naquela época, mas sempre dava pra se ver, mesmo que prum chopp. Poderia, claro, livrar a cara de um e de outro, se fosse coincidência demais que 95% das minhas amizades tivessem desaparecido. Depois nego aparece dizendo que ta com saudade, que não dava mais tempo de me ver.... enfim. Sei que foi de uma forma dolorida, mas tive o privilégio que poucos têm, de ver se aproximar os amigos de verdade e se afastar os que eram apenas de fachada. Triste isso? Principalemnte quando você tem um real sentimento de amizade pela pessoa, saber que não vai poder mais dar e pedir conselhos, se divertir, sair junto, contar com ela... é algo muito triste e que custa a se acostumar. Simplesmente acho todos eles ridículos quando penso em cada um, e desejo que sejam bem felizes todos sem exceção, mas LONGE de mim. A ´nica metáfora que eu tenho pra dizer pra eles é que “ a flor está murchando...e se ela morre, a culpa é do jardineiro”.


Pode parecer inveja, mas sei que não é.... meio que parte um pouco o coração ver que seus amigos vão pras boites, bares, raves... viajam, curtem uma praia, vivem nos “rolos” com uma paquera ou outra... e eu não. Me sinto com se estivesse vendo uma festa pela vitrine. Só não entrei ainda nesse tal de Second Life (pra quem ainda não conhece, é uma rede social besta que simula a vida real pelo computador) porque eu acho a idéia de viver baseado no mouse , teclado e monitor muito ridícula. Não quero brincar que estou curtindo a vida. Quero sim sentir a brisa do mar, o sol queimando minhas costas, a água revolta e salgada do mar, a movimentação das pessoas curtindo uma praia ou uma balada... sentir de novo aquilo que só quando a gente está apaixonado... quando eu escolhi por viver (naquele momento trágico), eu escolhi por viver ISSO que eu acabei de escrever e não o que estou vivendo.
Não bastasse todos esse problemas e ontem um dos médicos do HTo me diz que da forma que está, meu osso não vai crescer reto... que como alternativa a consolidar a tíbia meio envergada como está, só tem duas saídas: ou tento operar mais uma vez ( isso se o ortopedista QUISER me operar), ou então AMPUTAR ESSA PERNA ESQUERDA TAMBÉM... Não foi a primeira vez que me disseram que eu ia sofrer bem menos do que sofro hoje, que a recuperação seria mais rápida e prática... bom, por esse lado eu concordo, mas... seria esse um bom preço? Não sentir nunca mais cócegas no pé, não ter mais nenhum apoio, nem que este seja um tanto frágil... depender sempre de ajuda extra... sei lá, não estou pronto pra isso, se eu ao menos tivesse uma perna ainda sobrando, mas ficar sem as duas vai doer na alma, na dignidade. Estaria jogando aí esses dois anos de luta no lixo, pois 95% do que sofri até hoje foi por causa dessa perna, que pensam em serrar e jogar fora. Talvez agora vocês entendam o porquê de todo esse desabafo e o titulo do texto.

Sei lá, só quis anunciar ao mundo que eu, por mais esforços que ando fazendo, vejo claramente que estou perdendo essa guerra.
Sempre fui um sonhador, mas quando chega o momento que mais nenhum destes sonhos conseguem se realizar, é sinal que algo está no fim.
Às vezes eu mesmo me pergunto porque não deixei pra virar lembrança mesmo...à dois anos. Tirando minha a minha mãe, sei que seria mais fácil pra todo mundo, inclusive pra mim.”


O que foi tudo isso?
Uma mera reflexão ao despertar do dia...

PS: ao final de um dia de completo desabafo e incertezas, uma boa noticia...
Veja nesse link q tem até vídeo...
http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL38367-6174,00.html
 

Postado por Antonio Bordallo às 9:40 PM

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Domingo, Maio 13, 2007


O acaso em boa hora


A última segunda-feira foi minimamente especial. Acordei cedo, como todos os dias venho fazendo desde novembro, mas dessa vez foi especial: era o último dia obrigatório de aula no curso de guia turístico. Todos os sacrifícios que fiz – e que outrora havia dito que seriam impossíveis de ser realizados – todas as amizades feitas, e o mundo novo de perspectivas que se abriram pra mim ao longo destes quase seis meses, estavam se concluindo. Um ciclo se fechou, e agora não sei se me transformei em outra pessoa – melhor, mais forte – ou se o que mudou mesmo foi o meu olhar, que conseguiu então enxergar tudo isso que eu já era antes. O que importa é que concluí, e agora posso declarar, para qualquer órgão oficial, o que eu já me considerava ser desde 2002: um GUIA DE TURISMO.
Acordar às 6h, sair de casa às 7h15 pra chegar lá às 8h foi um sacrifício diário , pra esse cara aqui que não é muito de acordar cedo. Mas a paciência, e a própria certeza de que ao chegar no curso ia valer muito à pena, me fizeram ir em frente, empurrando minha cadeira de rodas com toda a força, mesmo cansado a ponto de chegar invariavelmente suado em sala de aula todos os dias. Foi muito duro passar em dez cidades diferentes, me locomovendo de cadeira de rodas e sem saber o que me esperava, também por inúmeras vezes ter que me arrastar pelo chão dos ônibus de turismo... o problema nem era só pela sujeira em si de um chão, mas a dor que dava nos meus braços depois de tanto ir pra lá e pra cá... em todos esses momentos, eu somente pensava comigo mesmo, às vezes em voz alta, falando baixinho: “ Um dia isso acaba...”. É... aparentemente acabou, mas não pra mim. Pra mim só vai acabar de fato quando eu não precisar mesmo me arrastar e empurrar uma cadeira de rodas, aí sim vai chegar o dia em que tudo isso vai ter acabado...

Apesar de tudo isso, naquela manhã de segunda-feira eu estava me sentindo leve... era uma das últimas vezes que eu teria que percorrer aquele longo trecho, e por isso mesmo eu não estava empurrando minha cadeira com aquele sensação de “ pqp, mais um dia...” que vez por outra tomava meu pensamento quando por lá passava.
Talvez por essa “sintonia com o Cosmo”, aconteceu uma coisa que eu não esperava: ao dobrar a esquina na rua da Assembléia com a rua do Carmo, às 8h da matina de uma segunda-feira, eu acabo por encontrar o Dr. Marcelo Bassani, ninguém menos do que o médico-cirurgião que havia me operado no dia do acidente... No início nem acreditei muito que era ele, numa hora tão inesperada, mas era sim. Conversamos por uns poucos e bons minutos, um resumão dos meus recentes passos em rumo a total recuperação. Ele ficou bem feliz com o que soube e me desejou mais sorte ainda do que já ando mostrando ter... Já que ele tá na minha lista de amigos dos Orkut, perder totalmente o contato é o que não vai acontecer...
Já que nem eu tava acreditando que estava encontrando ele, há exato 2 anos e 3 dias do momento mais crucial da minha vida (e que ele teve papel fundamental), pedi pra tirar uma foto com ele, até mesmo pra acreditar que aquele encontro ao acaso tinha acontecido esmo. Como prova, a foto é esta aí abaixo:




Fui pro curso radiante, ainda mais feliz do que já estava, e acreditando que não foi por acaso que eu o encontrei naquele momento.
Quando me despedi dele, não deixei de agradecer pelo que ele fez por mim há pouco mais de dois anos. Ele respondeu: “Que nada, você foi quem se ajudou, quem fez o trabalho mais difícil...”.

=D
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Postado por Antonio Bordallo às 2:14 PM

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